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terça-feira, 12 de junho de 2012

Deixem tudo na Mãe Terra - reportagem é de Stephen Leahy



Delegados indígenas da América do Sul se integram, a pé, em lanchas ou ônibus, à Caravana Kari-Oca, que os levará à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, onde esperam interpelar os governantes do mundo. "Representaremos milhares de comunidades aborígines da América do Sul", disse ao Terramérica o líder huaorani Moi Enomenga, momentos antes de tomar em Quito o ônibus que demorará nove dias para chegar ao Rio de Janeiro, sede da Rio+20.
Outros dirigentes indígenas se unirão a eles durante a viagem. Os huaoranis são um povo amazônico que habita o leste do Equador, em uma área de exploração petrolífera. A Rio+20 se apresenta como um espaço intergovernamental para adotar soluções para a crise mundial de sustentabilidade, que se manifesta no reiterado fracasso da economia globalizada, na carestia de alimentos, nos problemas energéticos e nos males ambientais globais, como a mudança climática e a perda de biodiversidade.

"Nós, indígenas, estivemos divididos durante anos. Agora vamos nos unir", declarou Moi, que nasceu em uma comunidade sem contato com o mundo ocidental, ou em isolamento voluntário, e atualmente preside a Associação Quehueri'ono. "Nem todos podem ouvir a voz que chega da Mãe Terra vinda da selva, e queremos levar essa voz ao Rio", acrescentou. De 14 a 22 deste mês acontecerá a Cúpula Mundial dos Povos Indígenas sobre Territórios, Direitos e Desenvolvimento Sustentável na aldeia Kari-Oca II, especialmente construída por indígenas brasileiros a cinco quilômetros da sede da conferência oficial.

"Kari-Oca" é uma palavra tupi-guarani que significa "casa de branco". Assim se referiam os indígenas da região onde hoje se encontra a cidade do Rio de Janeiro às primeiras urbanizações dos colonizadores portugueses. Daí a palavra "carioca", gentílico dos habitantes do Rio, onde há duas décadas aconteceu o encontro na primeira aldeia Kari-Oca, paralela à Cúpula da Terra de 1992. O Comitê Intertribal do Brasil, organizador do encontro, prevê a participação de aproximadamente 600 indígenas de todo o mundo, que prepararão uma mensagem e recomendações para o encontro de alto nível da Rio+20, que ocorrerá entre os dias 20 e 22.

"A situação dos povos indígenas no mundo me preocupa", ressaltou Moi. Em todas as partes, os governos ignoram seus direitos. E em todas as partes, Índia, África, América do Sul, estão à caça do petróleo e de outros recursos, acrescentou. Hortencia Hidalgo Cáceres, uma aymara chilena que integra a Rede de Mulheres Indígenas sobre Biodiversidade da América Latina e do Caribe, afirmou ao Terramérica que "é necessária uma mudança real. Queremos convidar o mundo para um futuro mais brilhante, baseado nos valores e princípios indígenas do bem viver".

Oposto à ideia ocidental de "viver melhor" - o crescimento econômico traz consigo o progresso e este leva à eliminação da pobreza -, o bem viver propõe o equilíbrio e a cooperação entre as comunidades humanas e sua integração com a natureza, da qual se retira o necessário para uma vida digna, sem o afã de acumular. Por outro lado, a "economia verde", que muitas nações querem plasmar no documento final da Rio+20, representa uma "falsa solução" para a crise de degradação ambiental e injustiça social, ponderou Hortencia.

Para Casey Box, coordenador de programas da organização não governamental Land is Life (Terra é Vida), "os povos indígenas têm muito a oferecer à comunidade internacional, que tenta abrir caminho para um desenvolvimento verdadeiramente sustentável". A Land is Life, com sede nos Estados Unidos, é uma coalizão internacional de comunidades autóctones que arrecadou fundos e ajudou a coordenar a caravana e a cúpula. Segundo Casey, "será impossível alcançar os objetivos da Rio+20 sem os conhecimentos tradicionais e as práticas de manejo de recursos dos indígenas".

Estima-se que da Rio+20 participarão cerca de 50 mil pessoas, entre elas 130 chefes de Estado e de governo. Da antecessora, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, de 1992, também conhecida como Cúpula da Terra, surgiram os três dos principais tratados ambientais: as convenções sobre mudança climática, biodiversidade e desertificação. Mais de 700 povos indígenas participaram da primeira cúpula Kari-Oca, em 1992, que originou um movimento internacional pelos direitos dos povos indígenas e colocou em evidência o papel dessas comunidades na conservação e no desenvolvimento sustentável.

"Nos emociona ir ao Rio porque há um espaço para os povos indígenas, onde poderemos falar sobre nossas preocupações e compartilhar nossos conhecimentos e nossa experiência", destacou Hortencia. Participantes procedentes da austral Patagônia chilena precisarão percorrer 60 horas de estrada até La Paz, na Bolívia, onde se reunirão com Moi e outros delegados que iniciaram a viagem no Equador, passando pelo Peru. A caravana Kari-Oca demorará cerca de cinco dias para percorrer o último trecho dos Andes e atravessar Bolívia, Paraguai e o sul do Brasil até chegar ao Rio de Janeiro, às margens do Oceano Atlântico.

Os indígenas estão ansiosos para participar porque somente nessas reuniões internacionais é que têm a oportunidade de serem ouvidos pelos governantes e pelo público em geral, explicou Hortencia. "Quando voltamos para casa, essas portas estão fechadas". Moi e os demais equatorianos esperam que os governos respeitem mais os direitos e pontos de vista de suas comunidades. "Perto de onde vivo existem duas comunidades não contatadas, mas estão ameaçadas pela exploração petrolífera, eles não a querem. Para eles, tirar petróleo do solo é como tirar o sangue de seus corpos", apontou. Os delegados também esperam denunciar iniciativas governamentais que consideram nocivas.

Gloria Ushigua, presidente da Associação de Mulheres Záparas, afirmou que o Programa Sócio Floresta, do Ministério do Meio Ambiente do Equador para combater o desmatamento, causa muitos problemas para as comunidades locais. A nação zápara habita o leste da província de Pastaza, no oriente amazônico equatoriano. "Tenho a esperança de compartilhar a história da minha comunidade e de debater sobre os direitos territoriais", manifestou Gloria em um comunicado.

Na caravana também viaja Celso Aranda do povo kichwa de Sarayaku, outro território de Pastaza, que na cúpula apresentará a proposta "Kawsak Sacha" (Floresta Vivente). Esta será a resposta do Sarayaku à mudança climática e à destruição da natureza, e detalhará a forma como as comunidades nativas podem proteger os ecossistemas, mantendo práticas ancestrais de manejo da terra. "Vamos continuar trabalhando para fortalecer nossas culturas e resistir à exploração de nossos territórios. Temos uma mensagem muito clara. Deixem tudo sob a terra", resumiu Moi.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Dia do meio ambiente: cuidado com as fachadas - Bispo Francisco - DSO



 Neste dia mundial do meio ambiente gostaria de provocar uma reflexão sobre a conjuntura que vivemos hoje no Brasil e no mundo, especialmente quando nos aproximamos da Cúpula dos Povos na Rio+20.
Diante do cada vez maior clamor dos povos a respeito da necessidade de se fazer uma mudança radical no modelo econômico, as elites mundiais continuam desenvolvendo suas estratégias de dissimulação. A prova é que o documento que deve chegar à Rio+20, elaborado pelos governos e depois de muitas rodadas  de negociação, pode representar um tímido acordo entre as elites políticas. E certamente postergará para a próxima Conferência as decisões que já deveriam ter sido tomadas há uma década atrás. 
Só existe uma esperança para a Rio+20 avançar: a mobilização política da sociedade civil contra a dissimulação do sistema. 
O Capitalismo está em crise e, ao contrário do que muitos podem pensar, ele tem um enorme poder de se adequar às crises, mudar algumas máscaras e continuar sendo o que sempre foi: um predador da natureza e de vidas. A moda agora é batizar o filho bastardo de economia verde. E a capacidade de construir discursos legitimadores é tão grande que até algumas vozes críticas acabam por se encantar com essa nomenclatura.   
O que é economia verde afinal? Um rótulo diferente para um remédio antigo e amargo. A economia verde esconde por traz de suas pretensas mudanças hermenêuticas o mesmo projeto: explorar desmedidamente a natureza e os povos. O homos economus  não abre mão do seu poder de produzir mais riqueza sob a alegação de que é preciso crescer para melhorar a qualidade de vida dos povos. Este discurso já está com prazo de validade vencido há tempos!
A economia verde não propõe inversão do modelo energético. Não propõe um repensar do consumo. Não repensa a questão da concentração de riquezas. Pode até se preocupar com algumas coisas cosméticas do tipo reciclabilidade, padrões mais ambientalistas e socialmente aceitáveis, entre outras fachadas, mas não abre mão da necessidade de continuar enchendo as carteiras dos financistas e tecnocratas que infelizmente se adonaram dos estados nacionais. 
Economia verde é quase como se ter papel reciclado nos extratos bancários mas para o que cobram autoritariamente o que querem de seus clientes em termos de taxas e juros. 
Ou então é o mesmo que utilizar sacolas plásticas biodegradáveis mas sem mexer com os atravessadores que compram dos produtores o mais barato possível e lucram com preços exorbitantes na prateleira do supermercado. Não mexe com a monocultura que produz óleos e combustíveis vegetais, reduzindo a área de produção de alimentos. E aqui se poderia apontar inúmeros exemplos de como a fachada bonitinha apresenta um cordeiro, mas que por traz dela existe o mesmo lobo de sempre!
A Igreja e os movimentos sociais são desafiadas a mostrar a sua força na Rio+20. Precisam questionar os poderosos deste mundo a respeito de seus acordos de cavalheiros para continuar fomentando uma economia que destrói o meio-ambiente, escraviza as pessoas, e mantém uma diferença vergonhosa entre privilegiados e excluídos