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terça-feira, 5 de junho de 2012

Dia do meio ambiente: cuidado com as fachadas - Bispo Francisco - DSO



 Neste dia mundial do meio ambiente gostaria de provocar uma reflexão sobre a conjuntura que vivemos hoje no Brasil e no mundo, especialmente quando nos aproximamos da Cúpula dos Povos na Rio+20.
Diante do cada vez maior clamor dos povos a respeito da necessidade de se fazer uma mudança radical no modelo econômico, as elites mundiais continuam desenvolvendo suas estratégias de dissimulação. A prova é que o documento que deve chegar à Rio+20, elaborado pelos governos e depois de muitas rodadas  de negociação, pode representar um tímido acordo entre as elites políticas. E certamente postergará para a próxima Conferência as decisões que já deveriam ter sido tomadas há uma década atrás. 
Só existe uma esperança para a Rio+20 avançar: a mobilização política da sociedade civil contra a dissimulação do sistema. 
O Capitalismo está em crise e, ao contrário do que muitos podem pensar, ele tem um enorme poder de se adequar às crises, mudar algumas máscaras e continuar sendo o que sempre foi: um predador da natureza e de vidas. A moda agora é batizar o filho bastardo de economia verde. E a capacidade de construir discursos legitimadores é tão grande que até algumas vozes críticas acabam por se encantar com essa nomenclatura.   
O que é economia verde afinal? Um rótulo diferente para um remédio antigo e amargo. A economia verde esconde por traz de suas pretensas mudanças hermenêuticas o mesmo projeto: explorar desmedidamente a natureza e os povos. O homos economus  não abre mão do seu poder de produzir mais riqueza sob a alegação de que é preciso crescer para melhorar a qualidade de vida dos povos. Este discurso já está com prazo de validade vencido há tempos!
A economia verde não propõe inversão do modelo energético. Não propõe um repensar do consumo. Não repensa a questão da concentração de riquezas. Pode até se preocupar com algumas coisas cosméticas do tipo reciclabilidade, padrões mais ambientalistas e socialmente aceitáveis, entre outras fachadas, mas não abre mão da necessidade de continuar enchendo as carteiras dos financistas e tecnocratas que infelizmente se adonaram dos estados nacionais. 
Economia verde é quase como se ter papel reciclado nos extratos bancários mas para o que cobram autoritariamente o que querem de seus clientes em termos de taxas e juros. 
Ou então é o mesmo que utilizar sacolas plásticas biodegradáveis mas sem mexer com os atravessadores que compram dos produtores o mais barato possível e lucram com preços exorbitantes na prateleira do supermercado. Não mexe com a monocultura que produz óleos e combustíveis vegetais, reduzindo a área de produção de alimentos. E aqui se poderia apontar inúmeros exemplos de como a fachada bonitinha apresenta um cordeiro, mas que por traz dela existe o mesmo lobo de sempre!
A Igreja e os movimentos sociais são desafiadas a mostrar a sua força na Rio+20. Precisam questionar os poderosos deste mundo a respeito de seus acordos de cavalheiros para continuar fomentando uma economia que destrói o meio-ambiente, escraviza as pessoas, e mantém uma diferença vergonhosa entre privilegiados e excluídos

sexta-feira, 1 de junho de 2012

ANEL DE TUCUM

"Mais que uma aliança, um compromisso contínuo!"

Quando me pediram para escrever sobre o “anel preto”, meu Deus, lembrei logo de Dom José Gomes e de tanta gente querida comprometida com o Reino de Deus!
Há quatro anos, quando Dom Pedro Casaldáliga completou 80 anos de vida, Dom Tomás Balduíno escreveu: “Pedro foi sagrado bispo em 1971, na cidade de São Félix, circundado pelo povo pobre de toda aquela região. Ele recebeu os símbolos litúrgicos que foram inculturados nas culturas dos povos indígenas e camponeses. A mitra era um chapéu de palha, o báculo um remo tapirapé e o anel era feito de tucum, tornando-se, em seu dedo e no de muitos agentes de pastoral, um sinal do empenho pela caminhada da libertação.”
É bom lembrar que na época do império, quando o ouro era usado em grande escala entre os opressores, principalmente nos anéis, os negros e os índios, não tendo acesso ao ouro, criaram um anel alternativo para o pacto matrimonial, símbolo de amizade entre si e também de resistência na luta por libertação. Era um sinal clandestino e apocalíptico, cuja linguagem somente eles sabiam. Ele agregava os oprimidos, em busca de vida, mesmo no meio de tanta opressão.
O anel de tucum, desde os tempos do CIMI e da CPT, até hoje, sempre é usado por aqueles/as que acreditam no Deus da vida e tem um engajamento, na perspectiva da educação popular, com as pessoas excluídas da sociedade. Representa a solidariedade que está nas mãos de muita gente que luta pela justiça e se engaja em pastorais sociais e em diversas entidades que lutam a favor dos que são explorados pelo capitalismo selvagem. O objetivo é denunciar as causas da pobreza e apoiar as iniciativas de outro mundo, que é possível!
Este é o compromisso simbolizado nesta aliança, já que, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, os profetas e apóstolos afirmam a fidelidade de Deus aos pobres e oprimidos. A aliança de tucum é o sinal desta fidelidade. Além da Bíblia, a opção pelos pobres é testemunhada por toda a tradição da Igreja, a partir do Concílio Vaticano II e das Conferências latino-americanas de Medellín e Puebla. Nossa Diocese de Chapecó caminha nesse rumo.
Quem usa o anel como enfeite ou porque está na moda é bom saber disso! No filme “Anel de Tucum”, Dom Pedro Casaldáliga explica assim o sentido desta aliança: “Este anel é feito a partir de uma palmeira da Amazônia (Bactris setosa). É sinal da aliança com a causa indígena e com as causas populares. Quem carrega esse anel significa que assumiu essas causas. E, as suas consequências. Você toparia usar o anel? Olhe, isso compromete, viu? Muitos, por causa deste compromisso foram até a morte”.

(Texto de Pe. Cleto Stülp - Publicado no Encarte Voz da Juventude/PJ Diocese de Chapecó de Jun. 2012 - Jornal Diocesano/Diocese de Chapecó)
*Foto de Dom José Gomes, na 5ª Assembleia Diocesana de Pastoral - 1996