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sábado, 19 de novembro de 2011

Entre nós está e não o conhecemos (Mt 25,31-46) - Mesters, Lopes e Orofino


QUEM ESTÁ AÍ? SOU EU! ENTRE NÓS ESTÁ E NÃO O CONHECEMOS MATEUS 25,31-46 Texto extraído no livro "Travessia - Quero misericórdia e não sacrifício" - Círculos Bíblicos sobre o Evangelho de Mateus. Autores: Carlos Mesters, Mercedes Lopes e Francisco Orofino.

SITUANDO O Sermão da Montanha, o primeiro livro da Nova Lei, abriu com as oito bem aventuranças. O Sermão da Vigilância, o quinto e último livro da Nova Lei, encerra com a parábola que descreve o juízo final. As bem-aventuranças descrevem o portão de entrada para o Reino, enumerando oito categorias de pessoas: os pobres em espírito, os mansos, os aflitos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os de coração limpo, os promotores da paz e os perseguidos por causa da justiça. A parábola do juízo final conta o que devemos fazer para poder tomar posse do Reino, a saber, acolher os famintos, os sedentos, os estrangeiros, os sem roupa, os doentes e os prisioneiros. No começo e no fim da Nova Lei estão os excluídos e marginalizados, estão os que procuram acabar com a exclusão. No fim do século I, as comunidades cristãs eram uma minoria. Vistas do lado de fora, pareciam grupos dissidentes dentro do mundo judeu. Ainda não tinham lideranças próprias organizadas. Seus superiores jurídicos ainda eram os escribas e os fariseus. O que havia eram missionários e missionárias ambulantes que passavam pelas comunidades para animá-las a continuar firmes na nova maneira de viver a Lei de Deus. Estes missionários eram pessoas simples, leigas, sem muita instrução. Por isso, eram desprezadas e perseguidas pelas lideranças dos judeus. Passavam fome e sede e, muitas vezes, eram jogadas na prisão. Esta situação é o pano de fundo da parábola do juízo final.

2. COMENTANDO Mateus 25,31-33: Abertura do julgamento final Chegou a hora do julgamento. O Filho do Homem aparece e reúne ao seu redor todas as nações do mundo. Separa as pessoas como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. O pastor sabe discernir. Ele não erra: ovelhas à direita, cabritos à esquerda. Jesus não erra. Ele sabe discernir bons e maus. Jesus não julga, nem condena. Ele apenas separa. É a pessoa que se julga e se condena pelo seu relacionamento com os pequenos. Mateus 25,34-36: Sentença para os que estiverem à sua direita Os que estão à sua direita são chamados "Benditos de meu Pai!", isto é, recebem a bênção que Deus prometeu a Abraão e à sua descendência (Gn 12,3). Eles são convidados a tomar posse do Reino, preparado para eles desde a fundação do mundo. O motivo da sentença é este: "Tive fome e sede, era estrangeiro, nu, doente e preso, e vocês me ajudaram!" A parábola tem um suspense. Até agora não se disse quem são as ovelhas que ficam à direita do Juiz. Sabemos apenas que elas acolheram o Juiz quando este estava faminto, sedento, estrangeiro, nu, doente e preso. E, pelo jeito de falar, "meu Pai" e "Filho do Homem", sabemos também que o Juiz é Jesus. Mateus 25,37-40: O esclarecimento do Juiz - O vigário de Cristo é o pobre Os que acolheram os excluídos são chamados "justos". Isto significa que a justiça do Reino não se alcança observando normas e prescrições, mas sim acolhendo os necessitados. Mas os próprios justos não sabem quando foi que acolheram Jesus necessitado. Jesus responde: "Toda vez que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes!" Quem são estes "meus irmãos mais pequeninos"? Em outras passagens do Evangelho de Mateus, as expressões "meus irmãos" e "pequeninos" indicam os discípulos (Mt 10,42; 12,48-50; 18,6.10.14; 28,10). São os membros mais abandonados da comunidade, os desprezados que não recebem lugar e não são bem recebidos (Mt 10,40). Jesus se identifica com eles. Mas não é só isto. Aqui no contexto tão amplo desta parábola final, a expressão "meus irmãos mais pequeninos" se alarga e inclui todos aqueles que na sociedade não têm lugar. Indica todos os pobres. E os "justos" e os "benditos de meu Pai" são todas as pessoas que acolhem o outro na total gratuidade, independentemente do fato de ser cristão ou não. Mateus 25,41-43: Sentença para os que estiverem à sua esquerda Os que estão do outro lado do Juiz são chamados de "malditos" e são destinados ao fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos. Jesus usa a linguagem simbólica comum daquele tempo para dizer que estas pessoas não entram no Reino. E aqui também o motivo é um só: não acolhem Jesus faminto, sedento, estrangeiro, nu, doente e preso. Não é Jesus que nos impede de entrar no Reino, mas sim a nossa prática de não acolher o outro, a cegueira que nos impede de ver Jesus nos pequeninos. Mateus 25,44-46: Pedido de esclarecimento e resposta do Juiz O pedido de esclarecimento mostra que se trata de gente comportada, pessoa que têm a consciência em paz. Estão certas de terem praticado sempre o que Deus pedia delas. Por isso estranham quando o Juiz diz que não o escolheram. O Juiz responde: "Todas as vezes que vocês não fizeram isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizeram!" A omissão! Não fizeram coisas más! Apenas deixaram de praticar o bem aos pequeninos e de acolher os excluídos. E segue a sentença final: estes vão para o fogo eterno, e os justos para a vida eterna. Assim termina o quinto livro da Nova Lei!

3. ALARGANDO Os quatro evangelhos são o álbum de fotografias do novo povo de Deus. Neles os primeiros cristãos conservaram para nós as fotos mais bonitas de Jesus. Eles conservavam as palavras de Jesus não como palavras de alguém do passado. Para eles, Jesus não era uma pessoa falecida de saudosa memória, mas sim alguém bem vivo no meio deles. Quando liam ou ouviam as palavras do Evangelho, não as escutavam como se fossem palavras de 20 ou 30 anos atrás, gravadas numa fita, mas sim como palavras que este Jesus, vivo e presente, diria a eles naquele momento. Assim, no texto de hoje, este mesmo Jesus aponta os pobres e os excluídos e nos diz: "SOU EU!"

CEBI realiza Assembleia Nacional


Entre os dias 11 e 14 de novembro de 2011, o CEBI realizou sua 19ª Assembleia Nacional. Realizado a cada três anos, o evento congrega representantes de todo os estados do Brasil que, além de avaliar a caminhada e planejar o próximo triênio, também elegem a nova direção da entidade. Foto: Marcelo Porto - CEBI/DF Ampliar imagem Frei Carlos Mesters ao final da celebração Esta Assembleia também foi marcada pela comemoração dos 80 anos de vida do biblista Carlos Mesters, um dos fundadores do CEBI, o que permitiu um tom muito mais festivo e carregado de emoções em diversos momentos. Veja aqui vídeo de 9 minutos lembrando a história de Mesters) Temas de destaque Na medida do possível, considerado o caráter da Assembleia, foram avaliados os avanços e as dificuldades em relação aos temas definidos como prioridade na última Assembleia Nacional, realizada em novembro de 2008 (Juventude, Saúde, Mundo Urbano e Temas de Fronteira, como descriminalização do aborto, direitos reprodutivos, homoafetividade e homossexualidade). Para a Assembleia, esses eixos devem permanecer, uma vez que a consolidação de direitos mínimos aos grupos e populações mais afetados por questões ligadas a esses temas é processo lento. Outras temáticas também podem receber maior atenção, como a desconstrução da imagem monoteísta para reconstruir um imaginário religioso mais plural, mais inclusivo. Lembrou-se também da necessidade de confirmar as linhas transversais da Leitura Popular da Bíblia (espiritualidade, cidadania, ecumenismo, gênero e ecologia). A Assembleia delegou ao Conselho a tarefa de definir quais dos temas terão maior destaque no próximo triênio. Reestruturação Ampliar imagem A Assembleia foi também o ponto de chegada de dois anos de avaliação de todas as instâncias organizativas do CEBI. Depois de mais de 30 anos de existência, fazia eco a necessidade de adaptação das estruturas à realidade atual e às necessidades das comunidades e grupos que praticam a Leitura Popular da Bíblia estimulada pelo Centro de Estudos Bíblicos. Conforme passou a constar no próprio Estatuto da entidade, "As pequenas comunidades são o lugar privilegiado de realização das atividades do CEBI". Este princípio orientou a constituição de uma nova estrutura organizacional, mais voltada às necessidades formativas locais de cada Estado. Pela avaliação das pessoas participantes, chegou-se a uma estrutura mais leve, mais ágil e mais democrática. Delegação de observadores/as Foto: Marcelo Porto - CEBI/DF Ampliar imagem Grupo de visitantes estrangeiros Além de várias pessoas visitantes, uma delegação estrangeira, fez-se presente durante toda a Assembleia, apresentando suas contribuições e, muitas vezes, ajudando a enxergar pontos nem sempre vistos "por quem é de dentro". Ailed Villalba e Izett Samá representaram o Centro Memorial Martin Luther King, de Cuba, organismo com o qual o CEBI possui atividades de intercâmbio. Alessandro Esposito representou a Igreja Valdense, da Itália, e Dario Vaona representou os grupos de Leitura Popular da Bíblia presentes em solo italiano. Gente nova na direção do CEBI A Assembleia foi precedida por seis assembleias regionais, que fizeram a indicação das candidaturas para a Assembleia Nacional, as representações no Conselho Nacional e para o Conselho Fiscal. Foto: Marcelo Porto - CEBI/DF Ampliar imagem Direção Nacional Para a Direção Nacional, de uma lista de sete nomes, foi eleita Adeodata dos Anjos como diretora (centro da foto). Adeodata é leiga católica integrante do CEBI-PI e animadora de comunidades que fazem da Leitura Popular da Bíblia uma maneira de aprender a conviver com o Semi-árido Nordestino. Odja Barros e Luiz Dietrich foram eleitos como diretora e diretor adjuntos. Odja é pastora batista e integrante do CEBI-AL e Luiz é leigo católico do CEBI-SC.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Somos sete bilhões - Marcelo Barros,


Deu nos jornais: na semana passada, exatamente na 2ª feira, 31 de outubro, nasceu a criança que nos fez completar sete bilhões de seres humanos no planeta terra. Não adianta especular quem foi essa criança e onde nasceu. Simbolicamente, foi escolhida uma menina que nasceu a zero hora do dia 31 nas Filipinas, mas é um dado simbólico e aproximativo. Entretanto, a ONU garante: somos sete bilhões. Basta dizer isso e surgem perguntas: a terra cabe tanta gente? Há alimento para tantas bocas? Como fica a ecologia? Evidentemente há problemas e a humanidade terá de tomar decisões importantes. Sem dúvida, o maior problema é que a população mundial cresce, principalmente, em países empobrecidos e onde a situação de alimentação, saúde e condições de vida são precárias. Enquanto no Japão e na França a média de vida ultrapassa os 80 anos, na Uganda, Nigéria e em outros países da África não chega a 48. Neste mundo, mais de um bilhão de pessoas passa fome ou não tem segurança alimentar. Quase um bilhão não tem acesso à água potável suficiente. Dois cidadãos norte-americanos ricos acumulam uma riqueza maior do que quase todos os países da África possuem para produzir, alimentar e cuidar de suas populações. A Terra sofre com o tipo de organização humana que lhe pede de mais a mais recursos para sobreviver e preencher suas aspirações ao consumo. Por quanto tempo, a terra poderá sobreviver como sistema de vida ao modelo de progresso tecnológico do mundo atual? Os estudiosos garantem que, sem recorrer a sementes transgênicas e à produção desumana de carne com hormônios, a terra pode alimentar e dar de beber a onze bilhões de pessoas. Já em seu tempo, o Mahatma Gandhi dizia: "A terra tem riquezas naturais suficientes para alimentar a humanidade e todos os seres vivos, mas não basta uma terra inteira para saciar a ganância dos que só visam o lucro pessoal e a ambição”. Em termos de espaço, um cálculo de cientistas revela que se colocássemos os sete bilhões de humanos um junto do outro, todos caberiam na ilha de São Luiz no Maranhão ou na área urbana da cidade de Los Ángeles (Cf. Folha de São Paulo, 30/10/2011). Temos a consciência de que pertencemos a uma única família humana. Asiáticos, africanos, latino-americanos, europeus ou norte-americanos, temos o mesmo tipo de organismo, as mesmas fragilidades e uma necessidade comum a todos: a de amar e sermos amados. Muitos propõem um programa rígido de limitação de nascimentos. Entretanto, isso não é suficiente e profundo. O mais urgente é refazer as regras da convivência social, reformar a ONU para lhe dar poder de defender a justiça internacional e garantir o direito e a dignidade dos países pobres, assim como conceber um modelo de desenvolvimento baseado na justiça eco-social e no respeito à natureza. Formamos com todos os seres vivos uma só comunidade terrena. Quem pertence a alguma tradição espiritual e todas as pessoas comprometidas com a paz e a justiça se sentem chamados/as a colaborar para a construção desse mundo renovado, no qual o direito, a justiça e a paz possam brotar como flores de um jardim bem cultivado. -----------------------.